A dermatite atópica canina (DAC) é uma doença inflamatória crônica, multifatorial e pruriginosa da pele, associada a uma predisposição genética e a respostas imunológicas exacerbadas a alérgenos ambientais. Representa uma das principais causas de atendimento dermatológico em cães, com impacto significativo na qualidade de vida dos animais e de seus tutores. Este artigo revisa os principais aspectos fisiopatológicos da DAC, critérios diagnósticos, métodos complementares, opções terapêuticas atuais e estratégias de manejo, com base em pesquisas conduzidas por especialistas renomados em dermatologia veterinária.
A dermatite atópica canina é uma enfermidade alérgica inflamatória crônica, caracterizada por prurido persistente e recorrente, geralmente associada a alterações cutâneas secundárias. A DAC compartilha diversas semelhanças fisiopatológicas com a dermatite atópica humana, sendo considerada um modelo espontâneo relevante para estudos translacionais.
Segundo Olivry et al. (2015), a DAC afeta entre 10% e 15% da população canina, com maior prevalência em determinadas raças, como Labrador Retriever, Golden Retriever, Bulldog Francês, West Highland White Terrier e Pastor Alemão.
A dermatite atópica canina é definida como:
“Uma doença inflamatória e pruriginosa da pele, geneticamente predisposta, associada a anticorpos IgE contra alérgenos ambientais”
(Olivry & Bizikova, 2013).
2.1 Disfunção da Barreira Cutânea
Pesquisas demonstram que cães atópicos apresentam alterações estruturais na barreira epidérmica, incluindo:
Redução de ceramidas; Aumento da perda transepidérmica de água (TEWL); Maior permeabilidade a alérgenos ambientais.
Essas alterações facilitam a penetração de alérgenos como ácaros da poeira, pólens, fungos e epitélios.
2.2 Resposta Imunológica Alterada
A DAC envolve uma resposta imune do tipo Th2, com produção aumentada de:
Interleucina-4 (IL-4), Interleucina-13 (IL-13),
Interleucina-31 (IL-31), esta última fortemente associada ao prurido.
A IL-31 é considerada um dos principais mediadores do prurido na DAC, sendo alvo de terapias modernas, como anticorpos monoclonais.
Os sinais clínicos geralmente se iniciam entre 6 meses e 3 anos de idade e incluem:
Prurido intenso (frequentemente precede as lesões); Eritema; Alopecia autoinduzida; Otite externa recorrente; Lesões em face, orelhas, axilas, abdômen ventral, períneo e extremidades.
Infecções secundárias por Staphylococcus pseudintermedius e Malassezia pachydermatis são comuns e agravam o quadro clínico.
4.1 Diagnóstico Clínico por Exclusão
Não existe um teste único e definitivo para DAC. O diagnóstico é clínico e baseado na exclusão de outras causas de prurido, como:
Ectoparasitoses (sarna sarcóptica, demodicose); Dermatite alérgica à picada de pulgas; Alergia alimentar; Infecções cutâneas primárias.
4.2 Critérios Diagnósticos de Favrot
Os critérios de Favrot são amplamente utilizados e incluem achados como:
Início precoce da doença; Prurido responsivo a corticosteroides; Distribuição típica das lesões; Otite bilateral recorrente.
A presença de pelo menos 5 dos 8 critérios sugere fortemente DAC.
4.3 Testes Alérgicos
Testes alérgicos não confirmam o diagnóstico, mas auxiliam na identificação de alérgenos para imunoterapia:
Teste intradérmico; Testes sorológicos de IgE específica.
A DAC não tem cura, mas pode ser controlada com estratégias terapêuticas multimodais.
5.1 Controle do Prurido e Inflamação
Principais opções terapêuticas:
Corticosteroides sistêmicos (uso cauteloso); Ciclosporina A; Oclacitinib (inibidor de JAK); Lokivetmab (anticorpo monoclonal anti-IL-31).
O lokivetmab tem se destacado por sua alta especificidade e perfil de segurança favorável.
5.2 Imunoterapia Alérgeno-Específica (ASIT)
Considerada a única terapia modificadora da doença, a ASIT visa induzir tolerância imunológica aos alérgenos identificados.
Segundo estudos de Olivry et al., cerca de 60% a 70% dos cães apresentam melhora clínica significativa com imunoterapia.
5.3 Tratamento da Barreira Cutânea
Inclui:
Shampoos terapêuticos; Produtos com ceramidas, ácidos graxos essenciais e esfingosina; Suplementação nutricional.
5.4 Controle de Infecções Secundárias
Infecções bacterianas e fúngicas devem ser tratadas adequadamente para evitar agravamento do prurido e inflamação.
Embora seja uma condição crônica, o prognóstico é favorável quando há manejo adequado. O sucesso do tratamento depende da adesão do tutor e do acompanhamento veterinário contínuo.
A DAC impacta diretamente o bem-estar animal, sendo essencial uma abordagem individualizada e baseada em evidências científicas.
A dermatite atópica canina é uma doença complexa, multifatorial e crônica, que exige diagnóstico criterioso e tratamento contínuo. Avanços na compreensão imunológica da doença permitiram o desenvolvimento de terapias mais específicas e seguras. O manejo multimodal, associado à educação do tutor, é fundamental para garantir controle clínico eficaz e melhora significativa da qualidade de vida dos cães acometidos.
Olivry, T., DeBoer, D. J., Favrot, C., et al. (2015). Treatment of canine atopic dermatitis: 2015 updated guidelines. BMC Veterinary Research.
Olivry, T., & Bizikova, P. (2013). A systematic review of the evidence of reduced skin barrier function in dogs with atopic dermatitis. Veterinary Dermatology.
Favrot, C., et al. (2010). Development of a set of diagnostic criteria for canine atopic dermatitis. Veterinary Dermatology.
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Halliwell, R. (2006). Revised nomenclature for veterinary allergy. Veterinary Immunology and Immunopathology.
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